Pororoca

Pororoca (2013). A palavra “pororoca”, do tupi pororóka, significa “grande onda de maré alta que, com ruído estrondoso, sobe impetuosamente rio acima […] apresentando uma frente abrupta de considerável altura, perigosa à navegação, e que depois de sua passagem forma ondas menores, os banzeiros, que se quebram violentamente nas praias”. (Disponível em: <http://www.michaelis.uol.com.br&gt;.)

Ficha Técnica: Felipe Prando, Pororoca, impressão cor, 35 x 10,5 cm, 2013.

Pororoca, por Claudia ZimmerPororoca, Felipe Prando, 2013. Constitui uma ficha-folheto integrante da publicação PLUVIAL FLUVIAL. Fechada ela mede 17,5 X 10,5 cm, aberta 35 X 10,5 cm. Aparentemente muito simples, o trabalho é composto pela impressão de uma cor CMYK diferente em cada uma das páginas. Além preencher todo um lado a cor avança meio centímetro para o outro, e vice-versa , o que colabora para que haja no meio da ficha aberta uma faixa resultante da mistura de duas cores. De um lado podemos ver metade magenta e metade ciano e entre eles um centímetro lilás, do outro, metade preto e metade amarelo, centralizando o encontro formado por uma espécie de cinza.

A proposição acima descrita advém de um trabalho chamado 4 Projetos Irrealizados onde o artista dispôs num painel cartazes relatando casos existentes na fronteira entre Brasil e Uruguai, sucedidos por descrições de possíveis trabalho a serem feitos a partir das investigações. No chão, em frente ao painel, posicionou para distribuição quatro pilhas correspondentes a quatro ideias distintas. Em uma conversa por e-mail em abril de 2013, Felipe conta que a princípio pensava em “imprimir cada cartaz em uma cor CMYK. Por uma questão visual e hierárquica acabei realizando todos brancos.” E continua: “Optei para o Pluvial-Fluvial usar esta parte não utilizada. Tento sempre fazer meus projetos com o mais baixo custo e usar as cores puras é algo que contribui para isto. Outro fator que acho interessante é o fato de dar visibilidade a uma estrutura presente em projetos de publicações: a gráfica e o padrão básico de cores”.

É interessante pensar como articulou título e objeto no trabalho para a publicação. Ao nomear de Pororoca um folheto tingido de cores puras (duas de cada lado) que se mesclam no centro, o trabalho ganhou uma dimensão dificilmente alcançada se tivesse outra designação. Neste aspecto, a discursividade do nome conquistou um espaço considerável fazendo despontar à nossa frente o encontro das águas do mar e do rio ao olhar a mistura impressa no papel. Mas a ideia, creio, não foi a de direcionar a uma única entrada no trabalho. Ao contrário, a estratégia de nomeação adotada aponta um caminho que irá desembocar num emaranhado muito maior de interesses do artista. Trata-se da instância discursiva de toda sua produção, bem como sua atenção por fronteiras, pela paisagem, pela circulação do que chama de docs/registros, entre outros elementos que tornam sua pesquisa bem mais densa e complexa. Na ocasião do convite feito para participar da PLUVIAL FLUVIAL enviamos aos artistas um texto que tecia a aproximação do processo artístico ao movimento contínuo das águas – um fluxo sem fim, denso, que ora se impõe, ora escapa.

A palavra Pororoca que sinaliza a colisão da água doce com a salgada, traz  uma carga simbólica que a evidencia como um operador de permuta. Esse entre formado pela troca, Michel Serres (1994, p.24) nos diz que “não é ainda nem um nem outro e torna-se porventura já um e outro simultâneo”. Assim, o título não só menciona um fenômeno que acontece no entre-águas como ele próprio pode se portar como uma via de acesso às investigações do artista.

(Este texto faz parte da pesquisa de doutorado (Des)localização do meio e outras rotas : trânsito entre meios desenvolvida pela artista Claudia Zimmer)